Sirenes Mais uma noite Mais uma mãe esperando alguém voltar pra casa Mais uma notícia que amanhã ninguém vai lembrar A sirene corta a madrugada feito faca no silêncio Mais uma família vivendo o peso do sofrimento A cidade não dorme, ela só fecha os olhos cansada Tentando esquecer a dor que visita cada quebrada A mãe faz oração antes do filho sair Porque hoje em dia voltar já é motivo pra sorrir O trabalhador pega o ônibus ainda sem amanhecer Sem saber se vai voltar pra quem ama ao anoitecer Na televisão aparecem números e estatísticas Mas não mostram o vazio deixado nas famílias Não mostram a cadeira vazia durante o jantar Nem a saudade que ninguém consegue explicar E eu vejo gente boa perdendo a esperança Enquanto o medo vai roubando os sonhos das crianças Que aprendem sobre violência antes da educação E crescem acreditando que isso é condição Essa é a cidade do medo Onde a paz virou exceção Onde o inocente paga caro Por erros que não são seus, não Cidade do medo Onde a fé resiste por um fio Mas enquanto existir esperança Ainda existe um caminho O menino joga bola na rua olhando pros dois lados Não por causa dos carros, mas dos riscos espalhados A infância vai ficando pequena cedo demais Quando crescer significa sobreviver aos vendavais A dona Maria abre a porta da padaria Cumprimenta os vizinhos e começa mais um dia Mas no fundo ela carrega a mesma preocupação Que mora em cada esquina dessa população As vielas conhecem histórias que ninguém contou De quem lutou honestamente mas nunca apareceu Porque manchete só mostra tragédia e confusão Mas existe heroísmo escondido na população Tem pai fazendo hora extra pra sustentar a família Tem mãe criando três filhos sem perder a dignidade na trilha Tem gente enfrentando o caos sem desistir da missão Mesmo quando a realidade pesa no coração Essa é a cidade do medo Onde a paz virou exceção Onde o inocente paga caro Por erros que não são seus, não Cidade do medo Onde a fé resiste por um fio Mas enquanto existir esperança Ainda existe um caminho E eu me pergunto até quando isso vai durar Até quando a gente vai se acostumar Com notícia de morte virando rotina E a violência dominando cada esquina Porque o medo não deveria ser normal Nem o luto constante virar algo banal A gente merece muito mais do que sobreviver A gente merece viver sem precisar temer Mas apesar da escuridão eu ainda vejo luz Nos que continuam caminhando mesmo carregando cruz Nos que acordam cedo e insistem em sonhar Mesmo quando o mundo tenta fazer parar Porque a cidade também é feita de resistência De gente simples carregando sua essência E enquanto existir alguém disposto a lutar A esperança ainda vai respirar Não são os prédios Não são as ruas Não são as avenidas Uma cidade é feita de pessoas E enquanto existir amor Ela ainda pode ser reconstruída Essa é a cidade do medo Mas não será assim pra sempre Porque a força do povo é maior Do que aquilo que a gente sente Cidade do medo Ainda tenta nos ferir Mas enquanto houver esperança A cidade vai resistir Mais uma noite termina Mais uma família agradece Mais uma criança sonha E a cidade continua respirando